“No que os poliamoristas em geral acreditam?”

A psicanalista e escritora Regina Navarro lista os valores que inspiram a prática do poliamor. O material foi tirado do livro A Cama na Varanda – edição ampliada.

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  • Os poliamoristas dizem que sua filosofia nada mais é do que aceitação direta e a celebração da realidade da natureza humana.
  • Os poliamoristas dizem que o sexo não é o inimigo, que o real inimigo é a quebra e a traição de confiança resultante da tentativa de reprimir nosso ser natural em um sistema social rígido e antinatural.
  • Os poliamoristas dizem que o sexo é uma força positiva se aplicada com honestidade, responsabilidade e verdade.
  • Os poliamoristas não têm de atender a todas as necessidades de cada parceiro; eles devem ajudar. Se sua esposa ama ópera e você não gosta, talvez algum de seus amantes apreciará levá-la à ópera. Se ele for também um mago da informática e ajudar a consertar seu computador quando ele não funciona direito, você é uma pessoa de sorte.
  • Os poliamoristas dizem que o amor é um recurso infinito, e não finito. Ninguém duvida de que você possa amar mais de um filho. Isso também se aplica aos amigos – quando você encontra um novo amigo, não precisa se preocupar com quem terá de descartar para colocá-lo no lugar.
  • Os poliamoristas dizem que o ciúme não é inato, inevitável e impossível de superar. Mas eles lidam com o ciúme usualmente de forma bem-sucedida. Há um novo termo para o oposto do ciúme: “compersion” (sem tradução para o português ainda, talvez possa ser traduzido como algo perto de “comprazer”). “Compersion” é o sentimento de contentamento que advém do conhecimento de que uma pessoa que você ama é amada por mais alguém.
  • Os poliamoristas dizem que o amor deve ser incondicional, no lugar da proposição monogâmica de que “Eu irei amar você sob a condição de que você não amará mais ninguém”, “Desista de todos os outros”, como usualmente é colocado. E, conforme demonstrado pela história, o casamento monogâmico não dá nenhuma garantia de que uma pessoa não amará mais ninguém ao longo da vida.
  • Os poliamoristas acreditam em um investimento emocional de longo prazo em relacionamentos; assim como esse objetivo nem sempre é alcançado no poliamor, ele também nem sempre é alcançado na monogamia.
  • Os poliamoristas acreditam que eles representam os verdadeiros “valores familiares”. Eles têm a coragem de viver um estilo de vida alternativo que, embora condenado pela sociedade, é satisfatório e recompensador para eles. Crianças que têm muitos pais e mães têm mais chances de serem bem cuidadas e menos riscos de se sentirem abandonadas se alguém deixa a família.

O que é o Poliamor?

"O nosso amor agente inventa" (Cazuza)

“O nosso amor a gente inventa” (Cazuza)

A palavra poliamor refere-se à prática de relacionamentos estáveis múltiplos, simultâneos e consentidos por todas as partes envolvidas. Baseia-se no princípio de que é possível se apaixonar, amar e relacionar-se sexual e afetivamente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, podendo ou não haver hierarquização entre os parceiros.

Os relacionamentos (afetivos e sexuais) podem ser independentes uns dos outros ou grupais, havendo uma espécie de rotatividade interna aberta ou fechada ao mundo “extra-policonjugal”. Ou seja, aqui não se faz costume a pratica da exclusividade amorosa ou corporal, o que, a princípio, pode-se interpretar como perda do sentimento de ciúmes. Mas, diferente do que muitos pensam, o poliamor não elimina a vaidade “conjugal”, apenas reformula sua lógica em um novo e mais saudável raciocínio, que desvaloriza o ego frágil como prova de amor verdadeiro – associação errônea e comumente atrelada às relações monogâmicas. (Entraremos em detalhes sobre o tópico ciúmes em postagens futuras)

A monogamia parte do principio de que um é especial para o outro na medida em que sua existência descarta a necessidade de outros parceiros. Frequentemente mantém-se uma relação com uma pessoa até que apareça alguém melhor. Em contrapartida, o poliamor enxerga cada relacionamento, não como único recurso, mas como uma escolha diária e independente – já que um amor não exclui a possibilidade do outro. Um sente-se especial por ter certeza de que é insubstituível. “Se as pessoas que amamos tiverem a liberdade de amar outras, ganha-se a autoconfiança e a segurança de saber que continuarão a estar conosco porque nos amam, e não porque nada mais lhes resta. Por outro lado, se um dia nos deixarem, será simplesmente porque já não nos amam, e não porque tiveram de optar.”, diz Miguel Viterbo e Daniel Cardoso, colaboradores do PolyPortugal, grupo de discussão e apoio aos interessados e praticantes do poliamor.

Um envolvimento poli pode acontecer de várias maneiras. Nem sempre, por exemplo, todos os parceiros relacionam-se entre si. Alguns – ou todos – podem estar apenas cientes da existência dos outros; podem até nunca tê-los visto. Além disso, a adesão à prática não significa que a pessoa sempre se relacionará com mais de um parceiro. Duas pessoas poli podem, por circunstância, se envolver nos moldes monogâmicos, porém mantendo a liberdade, para ambos, de afetuar-se por mais alguém e, assim, começar um segundo namoro. A depender do processo, o novo parceiro pode envolver-se apenas com um deles – enquanto o outro continua mono – ou aderir ao casal, formando um trio. Eventualmente e conforme as necessidades de cada um, mais rapazes e moças podem aparecer (para um ou ambos), aumentando o número de ligações afetivas e/ou sexuais concomitantes e consentidas.

O que não necessariamente significa “suruba”. Afinal, mesmo solteiro e teoricamente livre, ninguém se apaixona ou tem relações sexuais todos os dias, a qualquer momento, com/por qualquer pessoa. Você pode fazer isso se quiser, você é livre, o corpo é seu, mas poder não significar querer. Assim como querer, nem sempre significa fazer acontecer. O mesmo ocorre nas relações poliafetivas. A quantidade de parceiros românticos e/ou sexuais depende apenas das necessidades individuais de cada um.

Fernanda Fahel