O Seu Amor – Os Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil & Maria Bethânia)

O seu amor
Ame-o e deixe-o livre para amar
Livre para amar
Livre para amar

O seu amor
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser

O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz

O seu amor
Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é

A Maçã – Raul Seixas

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar…

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais…

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar…

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais…

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar…

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais…

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar…

Poligamia – Kid Abelha

Meus amores me querem inteira
Em qualquer posição
Meus amores não marcam bobeira
E eu não fico na mão…

Escritório, supermercado
Banco de condução
Todo canto é apropriado
Eu nunca digo não…

Abaixo o enguiço dos neurônios
Abaixo o desperdício de hormônios
Prazeres já temos de menos
Produtos já temos demais…

Vamos ficar, vamos fazer
Vocês e eu, eus e você
Vamos gozar, vamos viver
Vocês e eu, eus e você…

O amor o sorriso e as flores
Paraíso de Dante
Meus amores não são
Implicantes
Com meus outros amantes…

Corcovado ou escada rolante
Tudo isso convém
Todo homem merece um harém
Toda mulher também…

Abastece de óleo os neurônios
Esquece o monopólio de hormônios
Prazeres já temos de menos
Ciúmes já temos demais…

Vamos ficar, vamos fazer
Vocês e eu, eus e você
Vamos gozar, vamos viver
Vocês e eu, eus e você…(4x)

Poliamor X Relacionamento Aberto X Amor Livre X Swing X Poligamia X “Ficar”

"Consideramos justa toda forma de amor" - Lulu Santos

“Consideramos justa toda forma de amor” – Lulu Santos

Frequentemente confunde-se poliamor com amor livre, relacionamento aberto, swing, poligamia e “ficada”. Cinco práticas diferentes, porém vistas por muitos como parte do mesmo conceito. Segue a descrição de cada um desses termos e as suas principais diferenças em relação ao poliamor.

É importante ressaltar que as definições abaixo servem apenas como pequena parte da base inicial para o entendimento das relações afetivas, que, é claro, nem sempre se encaixam perfeitamente em apenas uma categoria.

Amor Livre

Surgiu como uma forma de embate à legislação das uniões amorosas. Seus seguidores acreditam que a igreja e o Estado não têm o direito de definir o que deve ou não ser considerado um relacionamento amoroso. Eles são contra o casamento, pois o vêem como forma de controle e submissão. O Amor Livre defende e pratica todo tipo de relação amorosa – inclusive a monogâmica – não atrelada a quaisquer registros formais. Ou seja, pessoas que se relacionam sem intitular-se “namorados” ou “casados”.

Dentre todos os estilos, o relacionamento livre é o que mais se aproxima do relacionamento poli, já que ambos dão grande flexibilidade afetiva e sexual à formatação das relações. No entanto, o poliamor não se preocupa tanto com o distanciamento de rótulos, que é uma característica fundamental do amor livre. Portanto, são movimentos distintos.

Relacionamento Aberto

Acreditam que desejos sexuais por outras pessoas procedem mesmo durante um relacionamento fixo e que reprimi-los pode gerar estresse entre o casal. Defendem a monogamia afetiva em parceria com a liberdade sexual. Portanto, relações extraconjugais não são consideradas como infidelidade, contato que não haja envolvimento amoroso; este deve existir apenas entre o casal. “Liberamos o desejo, não o sentimento”, diz um adepto. É importante ressaltar que o relacionamento aberto costuma funcionar melhor quando há regras bem definidas e consentidas por ambos para evitar desentendimentos.

Em contrapartida, poliamoristas são a favor da liberdade amorosa, além da sexual. Cada parceiro poliamoroso pode nutrir quantos namoros e/ou casamentos ele quiser – independentes ou conjuntos.

Swing

Refere-se à troca sexual de parceiros entre dois casais. Seus praticantes geralmente buscam se livrar da monotonia que tanto atormenta a maioria dos casais de longa data. O swing é quando dois casais se encontram ocasionalmente para trocar de parceiros em busca de diversificar o sexo, não havendo trocas romântico-afetivas. Diferente do relacionamento aberto, a prática do swing nunca acontece separadamente e exige concordância prévia entre os parceiros. Ou seja, os amantes não podem se encontrar a sós com mais alguém. Quando isso acontece, considera-se traição e, conseqüentemente, gera discórdia entre o casal. Por conta disso, os swingers são considerados monogâmicos.

No poliamor, os parceiros não buscam por casais. Cada um pode ter quantas relações afetivas quiser independente do outro. Além disso, aqui sexo não é objetivo como acontece entre swingers, sim conseqüência.

Poligamia

Teve início com a desproporção numérica entre homens e mulheres ocasionada pelas guerras, o que favoreceu o patriarcado. Décadas mais tarde, tornou-se popular a associação entre o conceito de poligamia e poliginia, no entanto, a poligamia também pode ocorrer entre mulheres, recebendo o nome de poliandria. A poligamia é uma forma de casamento comumente associada à religião mulçumana e reconhecida pela legislação de mais de 50 países, onde a população segue os ensinamentos do Alcorão – livro sagrado dos mulçumanos – que permite ao homem ter até 4 esposas, com a condição de que dê atenção igual a cada uma delas.

Tanto a poliginia, quanto a poliandria remetem a uma prática unilateral, em que apenas um dos sexos tem o direito de nutrir mais de um parceiro. Já o poliamor, além de não ter associações religiosas, é sempre bilateral porque defende o direito à liberdade de ambos. Ou seja, todos os parceiros podem amar e se relacionar com mais de uma pessoa. Ocasionalmente, um homem ou uma mulher pode ter mais de uma relação, enquanto o outro tem apenas a ele ou ela. No entanto, se é conservada a liberdade mútua para seguir novas escolhas, a prática não deixa de se caracterizar como poliamor.

Além de tudo, o significado de poligamia está muito mais atrelado ao ato do casamento do que à afetividade entre seus participantes. Casar com várias mulheres ou vários homens não significa necessariamente nutrir sentimentos por todos eles. Afinal, casamento nunca foi sinônimo de amor. A poligamia pode acontecer, também, como mera fidelidade a determinados padrões culturais religiosos; mera formalidade. Por outro lado, o poliamor é motivado apenas pela afetividade múltipa e tem formato fluido, portanto é uma pratica livre de padrões e incentivos religiosos.

“Ficar”

“Começou nos anos 80 entre os adolescentes, e consiste em trocas de caricias que vão dos beijos e abraços até alguma coisa mais, geralmente sem chegar ao ato sexual. O ‘ficar’ dispensa qualquer tipo de conhecimento prévio e qualquer tipo de continuidade (…) é uma forma não compromissada de relacionamento afetivo, no qual não há pressuposto de fidelidade/exclusividade”, diz Regina Navarro em A Cama na Varanda.

O poliamor, assim como o “ficar”, não exige exclusividade. Porém, há uma diferença discrepante entre os dois: enquanto “ficantes” não sentem amor ou qualquer senso de compromisso um pelo outro, poliamores se desenvolvem emocionalmente da mesma forma que um namoro comum fechado – só que aberto. Tanto o poliamor quanto o mono crescem por meio de uma ligação sentimental profunda. Amor, compromisso, responsabilidade e sinceridade são algumas das características essenciais entre policasais e dispensáveis entre ficantes.

Outra grande diferença entre poliamar e “ficar” é que o “ficante” deixa seu parceiro livre por não amá-lo ainda, e o poliamorista da liberdade a seus amantes justamente por amá-los.

– Fernanda Fahel

O que é o Poliamor?

"O nosso amor agente inventa" (Cazuza)

“O nosso amor a gente inventa” (Cazuza)

A palavra poliamor refere-se à prática de relacionamentos estáveis múltiplos, simultâneos e consentidos por todas as partes envolvidas. Baseia-se no princípio de que é possível se apaixonar, amar e relacionar-se sexual e afetivamente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, podendo ou não haver hierarquização entre os parceiros.

Os relacionamentos (afetivos e sexuais) podem ser independentes uns dos outros ou grupais, havendo uma espécie de rotatividade interna aberta ou fechada ao mundo “extra-policonjugal”. Ou seja, aqui não se faz costume a pratica da exclusividade amorosa ou corporal, o que, a princípio, pode-se interpretar como perda do sentimento de ciúmes. Mas, diferente do que muitos pensam, o poliamor não elimina a vaidade “conjugal”, apenas reformula sua lógica em um novo e mais saudável raciocínio, que desvaloriza o ego frágil como prova de amor verdadeiro – associação errônea e comumente atrelada às relações monogâmicas. (Entraremos em detalhes sobre o tópico ciúmes em postagens futuras)

A monogamia parte do principio de que um é especial para o outro na medida em que sua existência descarta a necessidade de outros parceiros. Frequentemente mantém-se uma relação com uma pessoa até que apareça alguém melhor. Em contrapartida, o poliamor enxerga cada relacionamento, não como único recurso, mas como uma escolha diária e independente – já que um amor não exclui a possibilidade do outro. Um sente-se especial por ter certeza de que é insubstituível. “Se as pessoas que amamos tiverem a liberdade de amar outras, ganha-se a autoconfiança e a segurança de saber que continuarão a estar conosco porque nos amam, e não porque nada mais lhes resta. Por outro lado, se um dia nos deixarem, será simplesmente porque já não nos amam, e não porque tiveram de optar.”, diz Miguel Viterbo e Daniel Cardoso, colaboradores do PolyPortugal, grupo de discussão e apoio aos interessados e praticantes do poliamor.

Um envolvimento poli pode acontecer de várias maneiras. Nem sempre, por exemplo, todos os parceiros relacionam-se entre si. Alguns – ou todos – podem estar apenas cientes da existência dos outros; podem até nunca tê-los visto. Além disso, a adesão à prática não significa que a pessoa sempre se relacionará com mais de um parceiro. Duas pessoas poli podem, por circunstância, se envolver nos moldes monogâmicos, porém mantendo a liberdade, para ambos, de afetuar-se por mais alguém e, assim, começar um segundo namoro. A depender do processo, o novo parceiro pode envolver-se apenas com um deles – enquanto o outro continua mono – ou aderir ao casal, formando um trio. Eventualmente e conforme as necessidades de cada um, mais rapazes e moças podem aparecer (para um ou ambos), aumentando o número de ligações afetivas e/ou sexuais concomitantes e consentidas.

O que não necessariamente significa “suruba”. Afinal, mesmo solteiro e teoricamente livre, ninguém se apaixona ou tem relações sexuais todos os dias, a qualquer momento, com/por qualquer pessoa. Você pode fazer isso se quiser, você é livre, o corpo é seu, mas poder não significar querer. Assim como querer, nem sempre significa fazer acontecer. O mesmo ocorre nas relações poliafetivas. A quantidade de parceiros românticos e/ou sexuais depende apenas das necessidades individuais de cada um.

Fernanda Fahel

A autora

Fernanda Fahel

Fernanda Fahel, autora do blog

Sempre achei que tinha algo de errado com o formato padrão dos relacionamentos. Nunca consegui entender o motivo de tanta competição, tantas brigas e sofrimento amorosos. Afinal, se posso ter vários amigos, por que não vários amores e parceiros sexuais? Seria tão errado assim? Tão pecador querer dividir prazeres e emoções de forma mais livre? Com 15 anos perguntei às minhas amigas porque elas não se relacionavam mais abertamente e disse que ciúme não fazia o menor sentido. Elas, é claro, acharam minha idéia ridícula. Eu, por ser tão nova, achei que talvez estivesse mesmo errada e deixei meu questionamento de lado. Mais tarde, aos 20 anos, entrei em contato com um tal de Amor Livre. Descobri que havia livros, pesquisas, artigos e muitos grupos na internet que argumentam a favor das diferentes formas de amar. Minhas antigas idéias foram revitalizadas. Passei a entender que não se trata apenas de bom senso, mas de liberdade! Saúde emocional! Auto análise e revolução! Trata-se de entender que nenhuma verdade é suprema; tudo tem causa, portanto é preciso um estudo profundo das origens de nossos atos, em vez da aceitação estática dos resultados. Só assim, chegando até a raiz, cada indivíduo será capaz de recriar seus ideais conforme aquilo que lhe parecer mais apropriado ao momento. Afinal, a vida é feita de instancias. Nada permanece, senão o fluxo.

Por que, então, bloquear a maior lei da existência, a fluidez? Por que extraí-la da nossa maior motivação, o amor? Não faz sentido acorrentar a espontaneidade natural dos nossos sentimentos. Simplesmente não é saudável, além de que, dizem as pesquisas de campo, tem dado muito errado. Não há fórmulas prontas para o amor, não há leis regulamentadoras. É uma tremenda auto-injustiça deixar que o nosso passado histórico repressor reflita no julgamento comportamental que, hoje, fazemos de nós mesmos. Sejamos os criadores de nossas próprias vidas. Não há “jeito certo” de amar. Há o melhor jeito para você e para mim, no meu e no seu melhor momento. Repito, a vida é feita de fluxos! Portanto nenhuma verdade é suprema. Contanto que não empatemos o caminho de ninguém, somos livres para inventar os nossos próprios caminhos e mudá-los quando necessário.

Portanto, se um amor não empata o outro, não há razões para batalhar. E foi com vista nisso que criei este blog. Espero que aproveitem o conteúdo que aqui postarei. Meu intuito é mostrar que amar está acima de quaisquer normatividades ou restrições, que não as nossas próprias para com nós mesmos.

-Fernanda Fahel